Aqui do Alto: o terror que nos assombra, sonhos e a luta pelo aqui e agora # Introdução ao afro-surrealismo

Texto de 2021. Por Gamba Martins

Já se passaram cerca de quatro anos desde que esta guerra começou. Há quase quatro anos desde que o Brasil vestiu sua verdadeira camisa, tirou a sua máscara e mostrou as garras. Desde então, a vida por aqui não foi a mesma. 

Das políticas públicas, figuras públicas assassinadas e lugares públicos incendiados,  o caminho da nossa história e sociedade se viram diante de outro muro. Deixando em evidência os privilegiados e a “sociedade de base”.

Uma realidade que acompanha o ser humano há centenas de anos. O interesse por comandar, ao modo eurocêntrico, vaga pelo mundo ao longo da história e já dizimou milhares de centenas de pessoas, principalmente em lugares colonizados.

A face do regime autoritário, machista, supremacista, branco, degola, outra vez, a galinha dos ovos de ouro.

Todavia, o que resta neste território? O qual, ao longo de 500 anos, foi surrado, extraído e exportado? Para onde vamos agora? Como seguir na jornada após o genocídio declarado à população preta? Milhares de vidas foram levadas. Governadores ditadores seguem controlando nações e territórios por meio do Estado.

Faz pouco mais de um ano desde que o meu quarto se tornou uma bolsa de mandinga. É nele que se encontram recursos e materiais para sobreviver ao momento surreal do isolamento social.

Vista do Alto - Aquarela sobre papel - Gamba Martins


Desde que esta guerra não armada, invisível, 3ª guerra mundial, começou, o quarto é o lugar no qual mais passo o tempo. 

Tempo demais que às vezes vago e já não sei que dia é, mesmo com agendas lotadas de reunião. A noção de tempo aqui de dentro se dissipa e o fluxo natural já se faz outro.

Quando esta guerra começou, estava em São Paulo. Era fim de carnaval e nos preparávamos para voltar aos escritórios. A repentina notícia de que um mal começava a devastar a população deixou as nações em estado de desespero. 

Pessoas começaram a estocar comida, instituições de todos os mais diversos setores planejaram sua mudança para o digital e remoto. A contenção de circulação foi extrema.

E agora, quem poderá nos defender? Um por todos, todos por um? Pátria amada Brasil?

Apesar da redução de circulação e fechamento de fronteiras, lugares, a priori periféricos, viam o isolamento longe de suas realidades e o trabalho remoto parecia filme de Hollywood e sem um final feliz. 

Como se não bastasse a situação do país - crise econômica, política, devastação de comunidades quilombolas e indígenas, exploração do cerrado, desastres ambientais causados pela privatização - é necessário lidar com a crise sanitária e seus efeitos como, a disparada de preços, aumento do desemprego, aumento da migração de retorno e mortes.

De um lado temos a educação em seu mais grave quadro de saúde, tão arcaica com sua origem nas bases do conhecimento europeu, fundada na primeira revolução industrial.

De outro lado, o trabalho. Este que segue um modelo industrial, de alta produção, capital, fordista, fundamentado nas relações de manufatura. Um modelo de trabalho baseado na hierarquia.

Este estado de inconsciência parece sugar nossa sanidade, tira nossa liberdade - liberdade que para nós não é escolha; nos coloca numa prisão, esgoela o desejo de viver de sonhos, ter como labor, a atividade que naturalmente dá prazer e felicidade de viver.

Como diz o ditado: 

“manda quem pode, obedece tem juízo”  

E QUEM SEMPRE PODE TUDO NESTA SOCIEDADE? O HOMEM BRANCO.

“O branco, aliás, não é uma cor, é uma atitude. Você é tão branco quanto pensa que é. É a sua escolha.

Entrevistador: Então o preto também é um estado de espírito?

Baldwin: Não. Preto é uma condição.

Entrevistador: Quem entre a comunidade branca pode falar com a comunidade negra e ser aceito?

Baldwin: Qualquer um que não se considere branco.”

James Baldwin, 1968

Em paralelo a estas duas áreas da vida, temos as relações, familiares, amizades, romances, a saúde, arte, modos de viver, agir e interagir, todos estruturados em bases eurocêntricas.

Existe uma história de descoberta da África e Américas que levou ao roubo de artefatos, tesouros e conhecimento.

Utilizados por pensadores e artistas, utilizados em construções europeias, guardados em museus do Reino Unido e Estados Unidos.

Por muitos anos, senti que tinha algum valor, que fazia parte de um mudo legal e o “se você sonhar, você pode tornar realidade” fazia sentido. 

Foi bom acessar lugares privilegiados perante a lógica do capital de consumo. Foi divertido descobrir o mundo deles, passar pela porta, extravagante, pegar a fila VIP, comunicar e viver com eles. 

Ao final você percebe que é mais um roteiro do filme “Corra”.

Fluídos desfragmentados - Gamba Martins - aquarela sobre papel 


O QUE ENTÃO FAZER? AFRO-SURREALISMO E SONHOS LÚCIDOS

Você teria coragem de correr? Você teria coragem de recomeçar?

O que então fazer? Campos de concentração, cidades bombardeadas, fomes e esterilização forçada já aconteceram. O caos já está instaurado. Os quatro cavaleiros já passaram há muito tempo. 

É necessário refletir sobre a humanidade.

Em seu livro “Ideias para adiar o fim do mundo”, Ailton Krenak reflete sobre a maneira como olhamos os povos que já passaram por esta terra, antes da atual configuração de sociedade, sonhavam a realidade: 

“Se, em vez de olharmos nossos ancestrais como aqueles que já estavam aqui há muito tempo, invertermos o binóculo, seremos percebidos pelo olhar deles.”

O conhecimento deixado por nossos antepassados não apenas para aquele momento. São reflexões para o bem-viver de qualquer povo. Krenak continua: 

"Sidarta Ribeiro traz uma revelação muito interessante: que as cenas de caça nas pinturas rupestres podem não estar registrando apenas atividades cotidianas, mas falando de sonhos. Sempre fomos capazes de observar uma diferença entre a experiência desperta e o mundo dos sonhos, então decerto conseguimos trazer para a vigília histórias desse outro mundo.” 

O manifesto Afro-surrealista diz: Veja o invisível! Você verá maravilhas desconhecidas!

Leopold Senghor, poeta, primeiro presidente do Senegal e surrealista africano, fez esta distinção: "O surrealismo europeu é empírico. O surrealismo afro indígena é místico e metafórico." 

Jean-Paul Sartre disse que a arte de senhor e do movimento surrealista africano (ou Negritude - termo cunhado por Aimé Césaire) “é revolucionária porque é surrealista, mas ela mesma é surrealista porque é negra”. 

O afro-surrealismo vê que todos os "outros" que criam a partir de sua experiência real e vivida são surrealistas, de acordo com Frida Kahlo. 

A LUTA PELO AQUI E AGORA, O PRESENTE

Eu nasci na cidade de Belo Horizonte, uma cidade com movimento cultural e artístico muito forte, e cresci no Alto Vera Cruz, um dos bairros mais empobrecidos da capital mineira. Cercado de tensões, conflitos, desenvolvimento, apropriações e resistência, do qual surgiram atividades, artistas, grupos e projetos que movimentavam a comunidade local.

Nesta terra de chavões e frases de efeito, o Afro-Surreal é necessário para transformar a forma como vemos as coisas agora, como vemos o que aconteceu então e o que podemos esperar ver no futuro.

Corpo periférico - Gamba Martins - aquarela sobre papel


O afro-surrealismo em ação

Aqui de cima do Alto Vera Cruz, o corpo que está à frente da periferia é a mãe, a minha mãe. Sempre disposta a lutar pelo seu sangue, uma escola e coletiva, a Tomas Educação, lojas e comércios de jovens não-brancos, o dia das crianças comunitário realizado pela galera do Rap, rappers que trabalham fora para manter seu role de criar,  as pessoas que vendem seus pertences na porta de casa.  No olho do furacão, a população se ergue novamente.

Esses são os primeiros passos de uma viagem ilustre e fantástica. Quando finalmente chegarmos àquelas praias desconhecidas, diremos, com sangue sob nossas unhas e lama em nossas botas: Isso é afro-surreal!


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