Ser negro e gay: dois caminhos entrelaçados

Publicado originalmente em 2017. O texto abaixo é uma versão atualizada em julho/2023.



Negro y gay - Gamba Martins - Aquarela sobre papel


Que nós vivemos em um país miscigenado, isso não é novidade para ninguém. Indígenas que aqui já habitavam antes da colonização, os europeus que chegaram e tomaram tudo e os africanos que foram trazidos como escravos.

Centenas de anos se passaram e aqui estou eu. Preto, gay e periférico. Cresci com muitos problemas dentro de casa, durante o ensino fundamental estudei em uma escola pública que existe no Alto Vera Cruz, onde sofri muito bullying, e no ensino médio pude estudar no, popularmente conhecido, Estadual Central, onde o ensino era considerado melhor.

Sem cursinho, me dediquei aos estudos – que eram intercalados com minha jornada de trabalho desde os dezesseis anos como menor aprendiz. E, apesar de todo cansaço, consegui uma bolsa em uma universidade particular. Nenhuma novidade até aqui, né? Muitas pessoas passam por isto ou situações piores.

Na minha vivência, algumas questões sempre foram delicadas e difíceis de lidar. Durante a minha trajetória, ser negro e gay nunca foi algo fácil. Primeiro porque, apesar da miscigenação, o padrão de beleza e objetivo dominante em nosso país é o do homem branco ocidental.

Enquanto negro, sempre me vi cercado do racismo institucional e preconceitos estereotipados ao ser preto: pobre, incapaz, inferior e não merecedor do afeto alheio. Sempre vive em uma realidade estigmatizada, cheia de marcadores históricos e marcas de exclusão. 

E depois por ser gay. É quando os estigmas ficam um pouco pior – porque numa sociedade heteronormativa, onde os valores culturais são predominantemente brancos, me via duplamente excluído, por ser negro e gay.

Ser gay no Brasil particularmente, é excessivamente americanizado, elitizado e cheio de marcadores, ou seja: o poder aquisitivo, o corpo malhado, a beleza sutil do branco, são evidenciados de forma excludente nos locais gays. 

É uma carga dupla, dois pesos diferentes. São dois lugares distintos, mas que, quando juntos, levam a uma realidade ainda mais difícil de ser encarada. Por um lado, nunca me vi aceito pelos homens negros, justamente por ser gay e do outro, não me sentia completamente aceito no meio LGBTQIAP+ por ser negro.

No meio das pessoas LGBTQIAP+ existe uma sutil exclusão dos corpos negros, construída social e historicamente. Mas por que sutil? Porque as coisas não são ditas, apenas são estabelecidas. 

Existe entre os gays, por exemplo, o sonho do namorado perfeito, branco, másculo, viril, rico, bem-sucedido, para se ter ao lado. O que leva à solidão da bicha preta. Nós não nos damos conta desse pré-conceito vedado em nós, até em mim, negro e gay. Todo esse desejo é sutil, seus efeitos são na subjetividade, já que muitas das vezes nada é dito, nada é falado.

Quantas vezes numa festa, chegamos a desejar os caras padronizados e deixamos de lado aquela mana negra? Nunca paramos para pensar que não, não é questão de gosto e sim, construção social.

Durante um tempo, precisei (ou tentei) responder a uma cultura de branqueamento, alisando meu cabelo e me portando como um gay mais normativo. O que foi uma frustração, não era eu (como disse nesse texto). Ser inteligente, gostar de estudar e ter planos para o meu futuro não era o suficiente, não para outros gays, não para ser parceiro de alguém. 

O preconceito, a discriminação e homofobiaainda são dilemas e precisam ser discutidos diariamente em nosso país. Viver com um fardo de uma sociedade padronizada ainda é motivo de dor e sofrimento, para mim e muitos outros que se encontram diante dessa realidade, um sonho de vida do qual ainda não faço parte.

O sonho do gay branco americano ou europeu (muitas vezes apresentado em filmes), não tem nada a ver com a minha forma de ser, meu jeito ou estilo. A desconstrução de tais estigmas se dá a partir da união dos movimentos, dos coletivos, sem exclusão. 

É preciso que pessoas negras LGBTQIAP+ façam parte e se sintam representadas por seus iguais. Se faz necessário o debate e troca de ideias, a fim de se estabelecer um ideal que ampare a todos. O que aconteceu até aqui, é a desvalorização de quem somos, e isso leva-nos a assumir uma vida que não é nossa.  



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